Lemos | The Ghost in the Shell da JBC

Aproveitando o lançamento do segundo volume da saga cyberpunk, confira a nossa análise completa deste premiado mangá da JBC

Lançado no final de 2016 pela Editora JBC, The Ghost in the Shell é um dos clássicos cyberpunk não só dos mangás, mas da literatura em geral. Para quem não conhece, o cyberpunk é um subgenêro da ficção científica situado em épocas futuristas que apresenta temas recorrentes como sociedade decadente, tecnologia, cibernética, inteligência artificial entre outros. Outros exemplos bem conhecidos de influências do gênero são Blade Runner e Matrix no cinema e nos mangás Akira e Battle Angel Alita, que também ganharam edições bacanas recentemente pela editora. The Ghost in the Shell foi criado por Masamune Shirow, que também criou Appleseed, título que também é bastante conhecido entre os fãs de anime e mangá. The Ghost in the Shell foi lançado originalmente pela editora Kodansha de Abril de 1989 à 1990 na forma de capítulos  na Young Magazine e lançado na forma de tankobon em 1991. O mangá também rendeu diversas animações a citar o longa de 1995 com o mesmo nome; uma série chamada Ghost in the Shell: Stand Alone Complex em 2002; a sequência do longa Ghost in the Shell 2: Innocence de 2004; uma série de OVA em quatro partes de 2014, chamada Ghost in the Shell: Arise, a qual foram adicionados dois episódios e lançada como uma nova série intitulada Ghost in the Shell: Arise – Alternative Architecture. Depois vieram ainda mais um longa de 2015 intitulado Ghost in the Shell: The New Movie e o polêmico longa americano live action estrelado por Scarlett Johansson que veio ano passado.

Sobre este ponto já aproveito o gancho para dizer que eu fui um dos que torceu o nariz e de tanto falarem, acabei não vendo no cinema. Mas depois de ler o mangá estou muito interessado. Os fãs sempre querem maior fidelidade ao material original. No entanto, The Ghost in the Shell não se limita a personagem da Motoko e sim sobre histórias que se passam nesse fascinante universo cyberpunk criado pelo autor. Logo, mesmo sem ver o filme que já sei que apresenta algumas diferenças, creio do que ouvi dizer que ele preserva o ponto principal, ou seja, a ambientação do universo criado pelo autor. A partir daí poderia-se contar qualquer história utilizando este universo. Aproveitando, vale citar que a JBC lançou também o livro Ghost in the Shell: Perfect Book, que traz detalhes de todas as animações já feitas de Ghost in the Shell, passando pelas tramas, detalhes de armamentos e robôs, bastidores e muito mais. Vale a pena conferir.

Mas vamos ao que interessa, a história e análise do mangá. The Ghost in the Shell se passa no futuro distópico de 2029, onde a alta tecnologia se mistura a uma sociedade decadente e desigual. É nesse mundo à beira do colapso que a Major Motoko Kusanagi encabeça a Seção 9 da Segurança Pública japonesa. Motoko é uma ciborgue altamente treinada incumbida de desmantelar uma série de crimes cibernéticos realizados por um hacker conhecido como o Mestre dos Fantoches. Se ficássemos por aí, não teríamos algo assim, muitooo genial. Mas o mangá vai muito além, trazendo questões filosóficas como “O que é vida?”, “O que nos faz humanos?” ou “O que nos diferencia das máquinas?”. Também é admirável o trabalho que o autor teve com pesquisa científica mesmo, em temas como biologia/bioquímica, química, física, computação, inteligência artificial, programação, entre outros. Ele cita inclusive algum material que leu durante a criação do mangá. Como já disse algumas vezes essa mistura toda, além das próprias idéias do autor, criam um universo completamente novo. Eu que sou docente e pesquisador de química aqui no “mundo real”, fique encantado com a minúcia de detalhes do autor como medidas com unidades adequadas de distâncias, descrição de armas, processo de criação de orgãos ou seres cibernéticos, etc. Sempre comparando com o que já se conhecia na época em termos de tecnologia ou prevendo ou citando o que já estava em desenvolvimento. Dentre muitas coisas legais que não vou ficar descrevendo aqui para não estragar a experiência do leitor, o autor estabelece de forma muito didática a diferença entre robô, ciborgues e androides. Fã de ficção científica desde criança, confesso que sempre achei confusa a distinção. Outro ponto importante que vale destaque na edição é o tal do “fantasma na máquina” do título mostrando até que ponto o ser humano se diferencia da máquina em termos de senciência. Dizer mais do que isso seria spoiler e desde já recomendo fortemente que você confira esse título.

E se tudo o que falei ainda não te encantou, The Ghost in the Shell ganhou uma edição sensacional pela JBC. O título recebeu merecidamente o 29° HQ Mix, o nosso Eisner ou Oscar dos quadrinhos nacional. A editora já fez um trabalho gráfico parecido em Akira, mas na minha opinião eles realmente se superaram nesta. Além da capa cartonada com sobrecapa, papel lux cream e 62 (!!) páginas coloridas, a equipe da JBC fez um trabalho editorial primoroso. O autor apresenta em quase todas as capas notas explicando mais sobre o universo da história, ou detalhes de alguma situação da trama. Se você tem preguiça (como eu) de ler essas notas que são recorrentes em mangás, pode esquecer. Aqui elas são imprescindíveis na compreensão da história. E lá estão todas elas, sem estragar a arte, em letras de tamanho legível e do que pude constatar sem erros grosseiros de português, que infelizmente são recorrentes em edições nacionais que são traduzidas de materiais originais em outras línguas. Na sobrecapa foi mantido o texto original em japonês cuja tradução está no final da edição, uma escolha bastante acertada, respeitando os editores originais. Dá gosto de pegar um material nacional assim em mãos e depois o ter em destaque na estante. Parabéns ao Cassius Medauar, Marcelo Del Greco e toda a equipe da JBC pelo carinho e cuidado que tem com seus títulos e este é só a cereja do bolo dentre muitos ótimos trabalhos que tem feito recentemente. Fico muito feliz em estar lendo finalmente os mangás em edições lindas como esta e outras que eles tem lançado. Quando morei no estado de SP, sempre ia a capital e me doía pegar um mangá original no bairro da Liberdade e ver as edições nacionais quase sempre inferiores. E logicamente que isso tem um custo e me entristece ver a galera metendo o pau na internet no preço. Claro que não se pode e nem se deve lançar todos os títulos em edições luxuosas, mas é gratificante quando nos deparamos com elas.

Aproveito a ocasião para dizer que a editora já lançou The Ghost in the Shell 2.0 (clique aqui para comprar a sua no Amazon) no final do ano passado e estou louco para botar minhas mãos nela. Logo mais nossa análise completa aqui no Game Play RJ. Fique ligado. Termino esta edição muito especial de Lemos dizendo que apesar de ter sido lançada em 2016, ainda está a venda por aí como no Amazon (clique aqui para comprar) e levei um bom tempo para ler e escrever essa coluna porque como pode-se ver pela minha análise é daquelas edições que você senta quando não tem nada mesmo para fazer, desfruta de cada minuto e não quer que acabe.

 

Felipe

Químico, pai e professor no mundo real, Felipe, vulgo Nerd sempre foi apaixonado por quadrinhos,cinema e TV. Também adora escrever e discutir sobre os temas nas horas vagas, o que o trouxe a GameplayRJ, sua morada na internet.

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