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Confira nossa análise completa do filme da Neflix

“Foi no reinado de George III que os personagens citados viveram e brigaram. Bons ou maus, bonitos ou feios, ricos ou pobres, agora são todos iguais”.

A citação acima vem do epílogo de Barry Lyndon, o subestimado filme de Stanley Kubrick. Após narrar as aventuras e infortúnios vividos pelo personagem-título em meados do século 18, Kubrick nos lembrava que, no fim das contas, todo mundo tem o mesmo destino. Ao final de O Irlandês, Martin Scorsese parece nos deixar com uma reflexão semelhante. Em sua nova incursão pelo universo da máfia, o diretor constrói um épico no qual vêm à tona temas como velhice, perda da relevância, morte e, por fim, esquecimento.

O tratamento épico, aliás, é uma novidade na abordagem da máfia pelo diretor. Diferente da saga dos Corleone em O Poderoso Chefão, Scorsese sempre se interessou mais pela arraia-miúda, os pequenos gângsteres que alimentam ilusões de poder até, inevitavelmente, quebrarem a cara. Em O Irlandês, o diretor aumenta o escopo, mas mantém a narrativa ancorada em uma figura secundária nesse universo, Frank Sheeran (Robert De Niro). Ex-combatente que trabalha como motorista e aplica pequenos golpes, Frank eventualmente conhece Russ Bufalino (Joe Pesci), o temido (e discreto) mafioso da Pensilvânia. A partir daí, torna-se parte de uma organização que envolve capos como Angelo Bruno (Harvey Keitel) e possui conexões com figuras do primeiro escalão da política americana, além de Jimmy Hoffa (Al Pacino), o poderoso presidente do Sindicato dos Caminhoneiros.

É Frank, já envelhecido, quem narra os acontecimentos, cobrindo décadas de história. A tecnologia usada para rejuvenescer o elenco ainda não é perfeita, por isso, é inevitável cair no famoso “vale da estranheza”, principalmente nas primeiras cenas em que vemos um rejuvenescido De Niro. Mas a sensação é passageira e representa um pequeno preço a pagar para ter um elenco absurdamente talentoso em tela durante todo o filme. De Niro e Pacino entregam suas melhores atuações em anos. E Pesci (que estava aposentado há uma década) surpreende ao compor um personagem de modos suaves e fala pausada, muito distante de seus papéis mais famosos. É o elenco dos sonhos nas mãos do maior diretor americano vivo.

Ao longo de 3 horas e 30 minutos, Scorsese constrói um complexo mosaico de intrigas, alianças e traições, alternando presente e passado com segurança e clareza impressionantes. Quando o filme foi lançado pela Netflix em novembro de 2019, muita gente reclamou de sua duração (o que é curioso, já que estamos na era das maratonas de séries). Mas o tempo que Scorsese emprega é essencial à narrativa. Nenhuma cena é desperdiçada, nenhum diálogo é supérfluo. A própria duração do longa é essencial para que o espectador sinta o peso da passagem dos anos sobre os personagens. Vistos em perspectiva, eventos impactantes, conflitos por dinheiro e poder e homens influentes empalidecem com o tempo. Num mundo violento como o da máfia, quem tem a sorte de não morrer cedo terá que enfrentar essa melancólica realidade.

O Irlandês concorre em nove categorias do Oscar 2020: Melhor Filme, Melhor Diretor (Martin Scorsese), Melhor Ator Coadjuvante (Joe Pesci e Al Pacino), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhores Efeitos visuais, Melhor Montagem e Melhor Direção de Arte. A cerimônia acontecerá em Los Angeles, Califórnia, no dia 9 de fevereiro. Confira a lista completa dos indicados clicando aqui.

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Jornalista por formação, batmaníaco por opção, cinéfilo, leitor esforçado, desenhista diletante e pai de menina.

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