Assistimos | Coringa

Confira nossa análise completa do filme da Warner Bros. Pictures

Um dos grandes trunfos do Batman, como personagem de ficção, é a sua capacidade de permitir todo tipo de releitura: coloque-o num futuro distópico ou no período vitoriano e ele funcionará; transforme-o num vampiro ou num personagem pulp e ele continuará convincente; faça uma animação ao estilo Lego ou um filme policial e o personagem continuará reconhecível. Se essa característica do Morcego já era bem conhecida, agora podemos dizer que seu arqui-inimigo compartilha da mesma versatilidade. Pois Coringa, filme da Warner Bros. Pictures em cartaz desde o último dia 3, é uma reinterpretação completamente nova e empolgante do famoso vilão.

O filme de Todd Phillips (da trilogia Se Beber, Não Case!) foge completamente dos estereótipos do “gênero de super-herói” e apresenta um estudo de personagem profundo e perturbador. A história acompanha Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um homem com severos distúrbios psicológicos, que sobrevive trabalhando como palhaço e aspira se tornar um comediante stand up. Vivendo em um apartamento minúsculo com a mãe doente, Arthur sente cada vez mais a hostilidade da sociedade que o cerca, percorrendo uma espiral de ressentimento e violência que o levará inevitavelmente ao ponto de ruptura.

Ao ambientar sua história entre o fim dos anos 70 e início dos 80, Phillips evoca o melhor do cinema de Hollywood do período. Filmes como Taxi Driver e O Rei da Comédia são inspirações evidentes (a presença de Robert de Niro no elenco não é por caso), mas há também ecos de Laranja Mecânica, Rede de Intrigas, Operação França e outros. Claro, referências às obras que compõem a mitologia do personagem também são visíveis, como Piada Mortal e O Cavaleiro das Trevas (a HQ e o filme).

Todo esse conjunto de referências, no entanto, não é mero fan service e está ali para servir à história. Da mesma forma, o design de produção está voltado para compor uma atmosfera triste e opressiva, com a fotografia e o figurino usando tons sóbrios e cores escuras.

Como resultado, vemos a Gotham City mais hostil já representada em um filme. Com Tim Burton, Gotham era um pesadelo gótico. Christopher Nolan a representou, em suas próprias palavras, como uma “Nova York anabolizada”. Phillips a transforma em uma metrópole quase inabitável, com ambientes claustrofóbicos, recessão econômica, lixo se amontando nas ruas e uma elite que não dá a mínima para o sofrimento das classes menos favorecidas (uma declaração de um personagem dessa elite, em certo ponto do filme, poderia concorrer a “frase mais infeliz do ano”).

É nesse cenário potencialmente explosivo que se desenrola a tragédia de Arthur Fleck. Mas toda a ambientação seria inútil se no centro do filme não estivesse um ator com o talento de Joaquin Phoenix. E o que ele entrega em Coringa é assombroso. Terrivelmente magro, Phoenix surge como um homem de aspecto doentio, curvado sob o peso de sua própria inadequação. Mais que pena, sua visão provoca incômodo. O ator ainda compõe um repertório de risadas que, ao longo do filme, se transforma em um verdadeiro vocabulário, traduzindo um transtorno neurológico (e é admirável perceber o sofrimento do personagem nesses momentos) ou tentativas frustradas de integração social.

E quando a violência finalmente explode no personagem, ela é crua e apavorante. O filme tem gerado muita discussão sobre uma possível glamourização do vilão. Mas esse não é o debate correto. É a reação da sociedade ao Coringa (tanto no filme quanto na vida real) que deve estar em foco. Pois esse personagem, brutalizado pelo meio em que vive, mas também claramente doente, é um termômetro perfeito para medir a nossa própria sanidade.

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Jornalista por formação, batmaníaco por opção, cinéfilo, leitor esforçado, desenhista diletante e pai de menina.

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