Assistimos | Bacurau

Confira nossa análise completa do filme nacional da Vitrine Filmes

Bacurau estreou na última quinta nos cinemas brasileiros e traz um descanso para nossos olhos e mentes em meio a tantos blockbusters. O filme traz uma visão bem realista do cenário atual do país em meio a uma história envolvente e bem construída. É inevitável falar sobre esse filme sem alguns comentários, pois ele traz tantas questões que nos faz querer discutir sobre ele ao final da sessão. Mas serão comentários gerais, sem estragar a experiência de nosso seguidor. Vamos iniciar essa visita à Bacurau com a sinopse oficial divulgada pela Vitrine Filmes:

“Num futuro próximo, Bacurau, um povoado do sertão de Pernambuco, some misteriosamente do mapa. Quando uma série de assassinatos inexplicáveis começam a acontecer, os moradores da cidade tentam reagir. Mas como se defender de um inimigo desconhecido e implacável?”

O cinema nacional tem crescido nas últimas décadas e ganhado destaque internacional. Bacurau é reflexo dissso. O filme foi exibido e elogiado em diversos festivais internacionais, sendo inclusive premiado em alguns deles. O longa levou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e de Melhor Filme na principal mostra do Festival de Cinema de Munique, na Alemanha. Também ganhou recentemente três prêmios no 23º Festival de Cine de Lima, no Peru: Melhor Filme, Melhor Direção e Prêmio da Crítica Internacional. Agora o filme será exibido no Festival de Toronto (TIFF 2019), nos dias 07, 09 e 13 de setembro na Mostra Contemporary World Cinema, sendo escolhido para representar o Brasil nos prêmios Goya, equivalente ao Oscar na Espanha, concorrendo a uma vaga na disputa pelo prêmio de melhor filme ibero-americano. Depois segue para o 57° Festival de Nova York onde será sua pré estreia americana para distribuição no país em circuito comercial. E qual o motivo para tanto sucesso de Bacurau, além do respeito que nosso cinema ganhou nos últimos tempos? Bom, não é apenas um, mas vários. O filme traz uma estética que em alguns momentos lembra as produções de Hollywood, mas que ao mesmo tempo é fidedigna ao nosso jeito brasileiro de ser. Ao mesmo tempo que utiliza de tomadas de ação que remetem as grandes produções que estamos habituados do cinema estrangeiro, é impossível esquecer que se trata de um cenário brasileiro. No caso o sertão pernambucano, escolhido como cenário, mas que diferente de outros que já utilizaram essa região, nos entrega uma realidade que poderia acontecer em qualquer lugar. No caso uma realidade muito atual que é retratada no roteiro pela resistência dos habitantes. Essa resistência, descrita na premissa e pelo trailer, inicialmente é contra uma invasão de pessoas de outro país (aparentemente todos americanos), mas que toma outros rumos. Após uma apresentação incrível dos personagens, onde logo entendemos a função dos habitantes de Bacurau, já nos vemos diante de uma situação política. Situação política esta que, de novo, não acontece somente no interior do sertão, mas que permeia a todos nós. A contenção de recursos, os políticos pouco confiáveis, o descaso com a cultura, a miséria que nos rodeia. Mas se você pensa que está indo ao cinema ver um filme com um tom unicamente político, de protesto, não se preocupe. Tudo é apresentado de forma sutil, ao mesmo tempo em que nos envolvemos cada vez mais na trama e nos importamos com os personagens. E que inicialmente ocorre em um ritmo lento, mas de forma alguma, cansativo. A medida que a história avança, começa paulatinamente um aumento no ritmo, pautado na ação e nas viradas de roteiro. A tensão também é crescente e no decorrer do filme já me encontrava grudado na poltrona, esperando que algo fosse acontecer a qualquer momento. Mas nem sempre acontece. A direção e roteiro de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles nos atrai em tomadas lindas, sejam abertas ou intimistas e nos mantém entretidos com essas viradas e uma arquitetura de roteiro lindamente construída. Não vou entrar no mérito de tudo o que é discutido ali para não estragar a experiência de nosso seguidor e para não me estender demais. O elenco é um show a parte. Destacam-se Teresa (Bárbara Colen), que chega na vilarejo com o espectador que começa a conhecer o vilarejo de Bacurau. A mulher é filha de Plínio (Wilson Rabelo), que faz as vezes de um líder para todos, mas em um local onde o povo toma as decisões de forma conjunta. Ela passa a ocupar o lugar de sua mãe, Carmelita (Lia de Itamaracá), cujo velório e sepultamento ocorre no começo do filme. Aliás sobre isso, é interessante destacar a importância da história daquele local e do seu povo, muito importante para a trama. Este ponto de novo traz um paralelo com nossa realidade atual onde não se valoriza, não se conhece, ou ainda, se distorce nossa história para satisfazer à interesses particulares. Sônia Braga nos brinda mais uma vez com uma bela atuação como Domingas, responsável pela saúde do povo. Do lado dos braços fortes de Bacurau, a dupla Pacote (Thomas Aquino) e Lunga (Silvero Pereira). Ainda que os dois sejam importantes na trama, achei Lunga ainda mais interessante. Nós ficamos cientes de sua existência bem no começo do longa, mas ele ganha um maior destaque e importância nos atos finais do filme. Um personagem incrível e marcante como não via há muito tempo no cinema nacional desde o saudoso Dadinho/Zé Pequeno de Cidade de Deus. E, neste ponto, vale destacar que se os dois, bem como os habitantes se tornam violentos, é porque vale a máxima que “Violência gera violência”. A violência quando aparece no longa não é gratuita, mas sim como ações necessárias da resistência, ainda que questionáveis. Além deles, uma míriade rica de personagens, que por vezes são arquétipos, como as prostitutas, a dona do bar, as crianças, e por vezes ganham destaque, como o violeiro sábio. E é isso. Encerro por aqui recomendando a nosso seguidor que vá de cabeça aberta sem colher muita informação prévia e tenha a experiência completa da visita à Bacurau. E se após a sessão, ainda tiver vontade de visita-la, não precisa ir tão longe. Ela está mais perto de você do que imagina. Mas se for visita-la, vá na paz, como diz o lema da placa da cidade. Fiquem ligados para mais novidades sobre filmes, a qualquer momento, aqui no GamePlay RJ.

Químico, pai e professor no mundo real, Felipe, vulgo Nerd sempre foi apaixonado por quadrinhos,cinema e TV. Também adora escrever e discutir sobre os temas nas horas vagas, o que o trouxe a GameplayRJ, sua morada na internet.

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